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O Brasil e a falerística portuguesa

(Originalmente publicado, sexta-feira, 22 de maio de 2009)

I – A Ordem da Torre e Espada

D. João VI

Retrato de D. João VI, Jean-Baptiste Debret, 1817 – óleo sobre tela,

Museu de Belas Artes (R.J.)

Também na falerística há fortes laços históricos unindo o Portugal e o Brasil que remontam ao início do século XIX quando a Família Real partiu rumo ao Brasil instalando-se no Rio de Janeiro.

Logo em Maio de 1808, o Príncipe-Regente D. João para assinalar a chegada da Família Real ao Brasil, resolveu criar uma nova ordem de mérito – a Ordem da Torre e Espada, com a finalidade expressa de recompensar os serviços de alguns Oficiais da Real Marinha Britânica que escoltaram a Armada Real até ao Brasil e de premiar os súbditos portugueses que acompanharam a Família Real para o Novo Mundo.

TERegulamentada em Novembro de 1808, as primeiras concessões tiveram lugar a 17 e a 20 de Dezembro contemplando diplomatas estrangeiros, oficias da Marinha Real Britânica, membros do Governo nomeado á chegada ao Rio de Janeiro, conselheiros de Estado, titulares de cargos palatinos e altas patentes militares. Com a retirada das tropas francesas de Portugal (1811-12) a Ordem foi utilizada para recompensar os Oficiais, britânicos e portugueses, que se tinham distinguido por bravura nas campanhas da Guerra Peninsular.

Num momento posterior e dado o envolvimento de tropas portuguesas nas campanhas de Montevideu (1816-1820) a ordem também foi concedida a militares que nelas combateram, alguns dos quais, aderiram após Setembro de 1822 à causa da independência do Brasil tendo atingido posições de relevo durante o Império.

Com o regresso de D. João VI a Portugal em 1821, a ordem serviu sobretudo para galardoar soberanos e príncipes estrangeiros aliados ou parentes do rei, militares envolvidos na Vila Francada e, na sequência da Abrilada, diplomatas e súbditos estrangeiros – oficiais das marinhas de guerra inglesa e francesa de navios surtos no Tejo.

As mais antigas insígnias da Ordem da Torre e Espada, hoje raras, terão sido fabricadas na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, a par de outras fabricadas no estrangeiro a partir da segunda década de oitocentos, mormente, por ourives conceituados em Inglaterra sob encomenda de agraciados britânicos.

Após a morte de D. João VI em 1826, a ordem continuou a ser conferida por D. Miguel I, que entretanto havia sido aclamado rei absoluto em cortes, até á Convenção de Évora-Monte em 1834 que consagrou a derrota das forças realistas e motivou o exílio de D. Miguel.

Pedro após ter abdicado o trono imperial do Brasil em seu filho D. Pedro II, partiu para a Europa e assumindo a Regência em nome de sua filha D. Maria II decidiu encabeçar a luta pela restauração dos direitos de sua filha organizando um exército nos Açores que em 1832 desembarcou no Mindelo e ocupou o Porto.

Placa TE

Ainda nos Açores decidiu D. Pedro, duque de Bragança, reformar a Ordem da Torre e Espada fundada por seu pai dando-lhe novos estatutos, de acordo com os princípios da Carta Constitucional que em Maio de 1826 havia concedido à Nação portuguesa. Passou a chamar-se a Antiga Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, com 4 graus e assumindo a natureza de ordem de mérito ou honorífica, na esteira da Legião de Honra criada por Napoleão e mantida pelo rei Luís XVIII após a restauração em 1814-15.

Portanto, de 1832-1834, co-existiram em Portugal duas ordens da Torre e Espada, ambas tendo servido para recompensar feitos militares ou serviços praticados no decurso da Guerra Civil que devastou Portugal.

De realçar que o Imperador D. Pedro I, na sua qualidade de rei de Portugal, concedeu em 1 de Maio de 1826, na véspera de abdicar o trono de Portugal em sua filha, uma grã-cruz da ordem da Torre e Espada a Dom Marcos de Noronha e Brito, 8º conde dos Arcos, que havia sido o último vice-rei do Brasil, e após a chegada da Corte ao Brasil, Governador da Baía e mais tarde Ministro da Marinha e do Ultramar e Ministro dos Negócios do Reino e dos Estrangeiros. A sua enérgica atitude na repressão da revolução Pernambucana de 1817 valeu-lhe a hostilidade dos sectores progressistas brasileiros e, só agora à distância de dois séculos, a sua acção no governo do Brasil colonial começa a ser reavaliada com isenção.

Após a extinção das ordens em 1910 pelo Governo Provisório da República, a Ordem da Torre e Espada foi restabelecida em 1917-1918 sendo hoje a mais alta condecoração da República Portuguesa.

Torre e Espaada

Vários Presidentes da República do Brasil foram agraciados com as seguintes ordens honoríficas:

Luiz Inácio LULA da SILVA, Grande-Colar da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, 5.03.2008 e Grande-Colar da Ordem da Liberdade, 23.07.2003

Professor Doutor Fernando Henrique CARDOSO, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito em 2002, Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1987) e os Grandes-Colares das Ordens da Liberdade (1996), de Santiago da Espada (1997) e do Infante D. Henrique (2000)

Fernando Collor de MELLO, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, 1992

José SARNEY, Grande Colar da Ordem de Santiago da Espada, 1986, e Grã-Cruzes das Ordens de Cristo (1998) e, do Infante D. Henrique (2000).

Dr. Tancredo de Almeida NEVES, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito,1985

João Baptista de Oliveira FIGUEIREDO, Grande-Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada, 22.09.1981 e Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, 21.12.1978, Grã-Cruz da Ordem de Cristo, 26.07.1973, Grã-Cruz da Ordem de Aviz, 27.07.1972

Ernesto GEISEL, Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique, 13.02.1979, Grande-Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada, 1.06.1977

General Emilio Garrastazu MÉDICI, Grande Colar 1973

Marechal Arthur da COSTA e SILVA, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito 1967

Dr. Juscelino KUBITSCHEK de OLIVEIRA, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito 1956, Banda de Grã-Cruz das Três Ordens – Cristo, Aviz e Sant’Iago, 30.07.1957 e Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique, 20.10.1960

Dr. João CAFÉ Filho, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, 1955

Getúlio VARGAS, Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito 1933 e Grã-Cruz da Ordem de Avis, 1941

II – A Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa

 

Conceição

Com a subida de D. João VI ao trono do Reino Unido de Portugal e Brasil, em 1816, e a sua solene aclamação em 6 de Fevereiro de 1818, no Rio de Janeiro, decidiu o rei criar a Ordem Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, por decreto dessa data e com regulamento aprovado por alvará, dado no Rio de Janeiro, em 10 de Setembro de 1819.

DebretAs insígnias desta ordem terão sido desenhadas pelo pintor Jean Baptiste Debret que à época se encontrava no Brasil integrado na que ficou conhecida como a Missão Artística Francesa. Debret que permaneceu no Brasil até 1831 também foi o autor do desenho das insígnias da Ordem Imperial da Rosa, criada pelo Imperador D. Pedro I em 1829, para comemorar o seu 2º casamento com D. Amélia de Beauharnais, princesa de Leuchtenberg. A ordem continuou a ser concedida após o regresso de D. João VI a Portugal e durante a monarquia constitucional até 1910.

Posted by José Vicente de Bragança at 09:30

 

Heróis esquecidos II

(Publicado originalmente, sábado, 11 de julho de 2009)

Paulo Jorge Estrela

Capitão António Maria Teles Freire

[Campanha do Barué, Moçambique, 1917]

Medalha de prata de Valor Militar, letra “C”

Med-Valor-C-1-prataCondecorado com a Medalha Militar de prata da classe de Valor Militar, letra “C”, o Capitão de Infantaria, em serviço na Guarda Nacional Republicana, António Maria Teles Freire, porque sendo subalterno da 1ª Companhia Indígena de Infantaria da Companhia de Moçambique que, fazendo parte da Coluna do Gorongoza, operou em 1917 na última revolta do Barué, se distinguiu pela energia, serenidade, sangue frio e coragem com que soube comandar o seu pelotão, sempre na guarda avançada da coluna em todos os combates e recontros, nomeadamente nos combates do Rio Mutacuduri, em especial na travessia do vau de Xideu, em que, à força de estímulo e com o próprio exemplo, encorajou a sua fracção, com água pelo peito e sob fogo mortífero dos revoltosos até à difícil escalada da margem, que primeiro alcançou, organizando com rapidez o ataque à posição ocupada pelos revoltosos e secundando com a sua força e debandada das trincheiras. Este Oficial dirigiu com acerto alguns raids quando Comandante do Posto de Inhandar, dos quais se colheram óptimos resultados.
– Decreto de 12 de Fevereiro de 1921 (Ordem do Exército nº 3 / II Série / 1921)

Soldado Jacinto Mundau
[Incidente das Portas do Cerco, Macau, 1952]

– Medalha de cobre de Valor Militar
Condecorado com a Medalha de cobre de Valor Militar, a título póstumo, nos termos do § 2° do artigo 8° do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por satisfazer às condições expressas no § 1° do artigo 7° do mesmo regulamento, o Soldado Indí­gena de Moçambique, Jacinto Mundau, nº 50/A/335, da 2ª Companhia do Batalhão de Caçadores nº 1, da guarnição militar da Província de Macau, porque, quando se procedia ao encerramento da fronteira na tarde de 25 de Julho do ano findo, foi atingido grave­mente com tiros, disparados por militares chineses, que lhe causaram a morte, quando, desarmado, lutava corpo a corpo, a fim de libertar e trazer para território na­cional um seu camarada, que, apanhado de surpresa, era arrastado para território chinês, demonstrando valentia, coragem e dedicação patriótica.

– Portaria de 6 de Maio de 1953 (Ordem do Exército nº 9 / II Série / 1953)

2º Subchefe da PSP, Manuel Miguéns Maria
[Guerra do Ultramar, Moçambique, 1972]
– Medalha de cobre de Serviços Distintos, com palma
Med-SD-cobre-1Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Defesa Nacional, louvar, por proposta do Comandante-chefe das Forças Armadas de Mo­çambique, o 2º Subchefe nº 362/1701, Manuel Miguéns Maria, porque vem desempenhando as fun­ções de Chefe da Secção de Informações do Desta­camento Policial do Songo com muita dedicação, espírito de sacrifício e forma altamente eficiente.
Ajudando a estruturar e organizar a rede infor­mativa, em termos de poder responder às inúmeras solicitações apresentadas por uma guerra subversiva, soube o Subchefe Miguéns, no cumprimento das di­rectivas do comando e com o entusiasmo que possui, adensar e dilatar essa estrutura informativa com uma eficiência digna dos maiores encómios.
Elemento leal e dedicado, de um dinamismo fora do vulgar, vem a desenvolver uma intensa actividade informativa, para a qual tem dedicado muitas horas do seu justo descanso e corrido sérios riscos.
Conseguiu, através dessa rede e usando subterfúgios e expediente imaginosos, notícias preciosas e impor­tantes, que, transmitidas às entidades competentes e por estas exploradas, têm vindo a contribuir para a detenção de muitos elementos ligados ao inimigo e para a destruição das estruturas político-militares em diversas áreas.
Pelas qualidades apontadas, considero que o Sub­chefe Miguéns vem desempenhando um importante serviço de carácter militar, por forma a merecer louvor individual a ser publicado na Ordem do Exér­cito, considerando extraordinários e importantes os serviços prestados.
– Portaria de 31 de Maio de 1973 (Diário de Governo nº 135 / II Série / 1973)

Furriel Piloto-Aviador Augusto Krug

[Viriatos, Guerra Civil de Espanha, 1938]
– Medalha de prata de Valor Militar, com palma

Med-Valor-palma-1-prataFurriel Piloto-Aviador Augusto Krug, porque, tendo-se oferecido para servir na Missão Militar Portuguesa de Observação cm Espanha, denotou sempre grande ardor combativo, coragem, decisão e espírito de sacri­fício, especialmente demonstrado no difícil e arris­cado serviço de acompanhamento, em que mereceu os mais rasgados elogios dos seus chefes e camaradas espanhóis, e ainda porque em 14 de Agosto de 1938, tripulando o avião nº 5 da “Cadena”, que colaborava no ataque à Serra de Pandols, tendo o seu avião sido atingido com bala explosiva no aileron esquerdo e com os comandos de direcção avariados, com grande risco, sangue-frio e habilidade, em vez de se lançar em pára-quedas, como em casos semelhantes era cor­rente na guerra, conduziu o aparelho ao primeiro terreno onde pôde aterrar, conseguindo assim salv­á-lo, procedimento este que deu origem a merecidos louvores de entidades espanholas e a um telegrama em que o General Comandante do Exército do Ar en­carregou o Chefe da Aviação de Cooperação de trans­mitir as suas felicitações a este piloto pela sua bri­lhante actuação.

– Portarias de 18 e 22 de Maio de 1940 (Ordem do Exército nº 11, II Série, 1940)

 

Heróis esquecidos I

(Originally Posted by Paulo Jorge Estrela, June 2009)

Paulo Jorge Estrela

Queremos com esta série de posts, a que daremos o título de “Heróis esquecidos”, relembrar e homenagear alguns Portugueses que ao longo dos últimos cem anos da nossa História, quando enfrentaram momentos de grande perigo se viram obrigados a reagir e tiveram um comportamento digno de registo. Muitos deram a sua vida em nome de Portugal, e em comum, todos foram agraciados pelo Estado Português, pelo que, em geral, tornaremos público o texto do diploma legal que os agraciou.

A Condecoração, enquanto prémio público, concedida por acções meritórias não é só um dever do Estado (por intermédio das suas variadas instituições) mas é, igualmente, um poderoso exemplo para que outros concidadãos dêem o melhor de si, quer em valor como em empenho e talento.
Iremos dar prioridade a pequenos Teatros de Operações ou a pequenas situações de tensão e conflito ocorridas em variados pontos do Império. De igual forma, a ideia é relembrar aqueles que habitualmente ficam de fora dos grandes trabalhos dedicados à acção dos militares dos 3 Ramos das Forças Armadas, como tem acontecido com as campanhas da Guerra do Ultramar. Nestas circunstâncias temos, a título de exemplo, os Sipaios, os Polícias, os Guardas-fiscais, os civis que actuavam como guias e batedores (ou mesmo algumas senhoras), as tropas auxiliares e as forças de milícias e de 2ª linha.

Sipaio Joaquim Amona
[Guerra do Ultramar, Guiné, 1969]

– Louvor e Medalha da Cruz de Guerra de 1ª classe (a título póstumo)

Cruz-Guerra-pescoço-1ª-clManda o Governo da República Portuguesa, pelo Minis­tro da Defesa Nacional, louvar, por proposta do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, o Sipaio Joaquim Amona, da Administração do Posto de Binar, porque no ataque particularmente violento que o inimigo efectuou sobre esta localidade em 17 de Julho de 1969, ao tomar parte na reacção das nossas tropas, debaixo de nutrido fogo adversário, conduziu um grupo de caçadores nativos em perseguição do inimigo, de modo a obter uma reacção violenta que fez quebrar o ímpeto inicial da acção. Apesar do intenso fogo, o Sipaio Joaquim, reagindo pelo fogo e movimento, com risco de vida, conseguiu aproximar-se muito dos elementos inimigos, numa acção de coragem, sangue-frio e desprezo pelo perigo, incitando o seu grupo à reacção e conseguindo abater um elemento inimigo a pequena distância, de tal modo que a sua acção plena de decisão e serena energia conseguiu pôr em fuga os elementos inimigos que sobre si faziam fogo, não sem que antes lhe tivessem provocado ferimentos de que veio a falecer.
Para além das qualidades e virtudes evidenciadas nesta acção, que não foram mais do que a confirmação das mesmas já amplamente conhecidas, o Sipaio Joaquim, desde o inicio dos acontecimentos, sempre trabalhou com as nossas tropas, apesar da sua avançada idade, de molde a merecer sempre os mais rasgados elogios, respeito e consideração de quem teve a honra de o ter por colaborador.
Extremamente leal, de acrisolado patriotismo e dedicação pela causa que serviu até morrer, o Sipaio Joaquim soube sempre comportar- se de molde a merecer a consideração, respeito e a admiração pelas qualidades que a todo o momento evidenciava, quer em operações, quer no trato pessoal.
Dispondo em cada militar de um amigo desinteressado, mereceu sempre dos comandantes com quem trabalhou inúmeros louvores e elogios que não só devido às suas qualidades de combatente evoluído, experiente e experimentado, mas também devido às suas qualidades excepcionais de guia das nossas tropas, ainda há bem pouco tempo reconhecidas por um louvor que lhe foi concedido.
Dispunha ainda o Sipaio Joaquim, devido às suas qualidades humanas, de um prestígio difícil de igualar junto de todas as populações da área, o que foi também demonstrado nas cerimónias do seu funeral, que fizeram reunir à sua volta milhares de nativos.
Por tudo o que acima fica exposto, o Sipaio Joaquim Amona, para além da perda que representa, foi bem um exemplo de amor pátrio, dedicação pela causa que serviu de modo exemplar, e digno de ser realçado como personalidade invulgar e merecedor do maior respeito e admiração de todos nós, e elevado exemplo de qualidades e virtudes que nunca será de mais enaltecer.
– Portaria de 5 de Fevereiro de 1970 (Diário de Governo nº 37 / II Série / 1970)

Tenente miliciano Jean Marie Filiol de Raimond
[Ataques fronteiriços, Estado Português da Índia, 1957]

– Medalha de prata de Valor Militar, com palma (a título póstumo)

Med-Valor-prata-palmaManda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Defesa Nacional, e nos termos do ar­tigo 50° do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, condecorar a título póstumo com a Medalha de prata de Valor Mi litar, com palma, o Tenente miliciano de Infantaria Jean Marie Filiol de Raimond, porque, uma vez chegado, na noite de 17 para 18 de Setembro de 1957, junto do Posto frontei­riço de Anconém, do distrito de Goa, onde se travava um duro combate havia já algumas horas, indiferente ao intenso fogo de armas automáticas e às granadas de mão constantemente lançadas pelos assaltantes, que procuravam dominar a guarnição portuguesa, tomou o comando de uma fracção da patrulha que acompanhara, a fim de, procurar envolver o inimigo por um dos flancos; e por tal maneira se conduziu, indife­rente ao perigo e debaixo do fogo do atacante, muito superior em número e na qualidade do armamento, que rapidamente contribuiu para que o agressor levantasse o cerco e se pusesse em fuga para o território donde tinha partido e onde, a coberto da fronteira, não podia mais ser perseguido.

Possuidor de rara coragem moral e grande espírito de decisão, procurando infiltrar-se à frente dos seus homens para atingir duramente o inimigo, só deixou de combater com a maior tenacidade quando, atingido mortalmente pelo fogo adver­sário, caiu inanimado, depois de ter incitado os seus subordinados ao cumprimento dos seus deveres para com a Pátria que tinha abraçado com o maior ardor desde a infância.
– Portaria de 10 de Dezembro de 1957 (Diário de Governo nº 251 / II Série / 1957)

Enfermeira Joana de Saúde Pires Tenório
[Guerra do Ultramar, Angola, 1961]

– Medalha de prata de Mérito Feminino – Pela Pátria

Med-Merito-Feminino
Considerando que Joana de Saúde Pires Tenório, Enfermeira nas minas do Mavoio, da Empresa do Cobre de Angola, exerceu notável acção em que muito contribuiu para manter o elevado moral do punhado de portugueses que tão nobre e valentemente asseguraram a defesa daquelas minas, posição chave nas faldas da Serra da Canda, concorrendo assim para a manutenção da soberania nacional naquela região; Considerando que em Março de  1961, quando da onda sanguinária do terrorismo avassalava a região do Mavoio, forçando a evacuação total de mulheres e crianças, ficou voluntariamente até que a região estivesse ocupada militarmente e pacificada, continuando a prestar a elementos do Exército a sua assistência técnica e moral;

Considerando ainda que, com risco da própria vida, demonstrou sempre, sobretudo nos momentos mais críticos, as suas extraordinárias qualidades de abnegação, heroísmo e sacrifício, a par de inexcedível calma, valentia e patriotismo, pelo que deve ser apontada como exemplo de portuguesa que nobremente serviu a Pátria:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Medalha de prata de Mérito Feminino – Pela Pátria, por se encontrar ao abrigo do nº 2 do artigo 2º, com referência ao artigo 3º do Decreto-Lei nº 44 566, de 12 de Setembro de 1962, a Enfermeira Joana de Saúde Pires Tenório.
– Portaria de 28 de Setembro de 1962 (Diário de Governo nº 255 / II Série / 1962)

 

 

Falerística em Ex-Líbris I

Prof. Antonio Padula

Lusófilo e escritor, natural deNápoles, onde fundou a «Sociedade Luís de Camões».

Autor de vasta obra sobre literatura portuguesa quer como autor, quer como tradutor, foi sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, da Sociedade de Geografia e do Instituto de Coimbra.

Foi Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Por ocasião dos Centenários da Descoberta da Índia e do Nascimento de Almeida Garrett, publicou os opúsculos – Il 20 maggio 1498 e Il Centenario di Almeida Garrett, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem de Cristo e, pela sua obra sobre a literatura portuguesa recebeu também o grau de Comendador da Ordem de Santiago da Espada.

Era igualmente cavaleiro da Ordem do Santo Sepulcro e da Ordem Teutónica.Obras:

Il General Antonio Oscar de Fragoso Carmona, Presidente della Republica Portighese : studio storico-politico. Napoli : Società Luigi Camoens, 1931.

Un portoghese grande amico dell’Italia, Antonio de Faria : saggio bio-bibliografico. Napoli : La Società Luigi Camoens, 1930

João de Deus : il grande poeta lirico portoghese : pel centenario della sua nascita 1830-1930. Napoli : [s.n.], 1929.

Camoens e Teofilo Braga — (Estratto delia *Rassegna Italiana»), (Napoli — l908).

Camoens Petrarchista : Studio : Con appendice di sonetti del poeta nella traduzione inedita di Tammaso Cannizzaro. Napoli : Società Luigi Camoens, 1904.

Gli ordini cavallereschi del regno di Portogallo: notizie storico-araldiche, Società Luigi Camoens, 1908

Les ordres chevaleresques du royaume de Portugal ; [trad. de] Paul Pellot. Reims : Imprimerie Coopérative, 1908

Il re Galaor : poema drammatico / di Eugenio de Castro ; traduzione dal portughese di Antonio Padula, preceduta de un esame critico. Acireale : Etna, 1900.

Salome / Eugenio de Castro ; traduzione dal portoghese di Antonio Padula, preceduta da una nota illustrativa. Napoli : Pierro e Veraldi, 1899.

Camoens e I Nuovi Poeti Portoghesi,Napoli, 1896; trad portuguesa, de A. Ferreira de Faria. Camões e os novos poetas portuguezes: conferencia feita a 30 de maio de 1896 no III sarau Litterario-musical, dado pelos Intellectuaes na salla Ricordi de Napoles, Typ.a d’A Folha, 1899

Usou um ex-líbris heráldico com o escudo sobreposto sobre a Cruz da Ordem de Cristo. Envolvendo o escudo, o colar da ordem de S. Tiago do Mérito Scientifico, Litterário e Artistico e, tendo pendente do mesmo, a insígnia da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

Fontes: Jacopo Gelli, 3500 Ex Libris Italiani, 1ª ed. Milano, Ulrico Hoepli, 1908, p. 291

Homenagem ao Almirante Gago Coutinho (1869-1959)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Vice-Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho 

Paulo Jorge Estrela

 

gago-coutinho1
Col. Museu do Ar
Sociedade de Geografia comemorou ontem dia 17 de Fevereiro de 2009, o 140º aniversário do nascimento do Almirante Gago Coutinho com uma Sessão Solene presidida pelo Presidente da República e uma exposição de parte do espólio legado pelo homenageado à instituição, que inclui as suas condecorações.

O Alm. Gago Coutinho, matemático e geógrafo insigne, foi um dos raros portugueses condecorado com o mais elevado grau de todas as ordens militares portuguesas: Grã-Cruz das Ordens Militares da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, de Cristo, de Avis e de Santiago da Espada. Era também Grã-Cruz da Ordem do Império Colonial e tinha a Medalha de Ouro de Serviços Distintos e a Medalha Comemorativa das Campanhas do Exército Português com passadeira “Timor, 1912-1913”.
Após a realização da primeira viagem aérea Lisboa-Funchal em 1921 num Hidrovão tripulado com o Capitão Tenente Piloto Aviador Artur de Sacadura Freire Cabral e o 1º Tenente Piloto Aviador Manuel Ortins Torres Bettencourt, o então Capitão de Mar e Guerra Carlos Viegas Gago Coutinho foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, o mesmo tendo recebido o Capitão Tenente Piloto Aviador Sacadura Cabral e Manuel Ortis Bettencourt, o grau de Cavaleiro (Decreto 20 de Maio de 1921 (D.G. 114 / II Série / 1921).

 

A Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada foi-lhe atribuída, bem como ao Capitão Tenente PA Artur de Sacadura Cabral, após terem completado com sucesso a primeira parte da travessia aérea do Atlântico Sul entre Lisboa e Cabo Verde, primeiro no Hidrovião «Lusitânia» e, finalizando a viagem de Fernando Noronha-Recife-Rio de Janeiro, no hidrovião «Santa Cruz», hoje exposto no Museu da Marinha em Lisboa.
O Decreto de concessão dizia:
«Considerando que a viagem aérea, realizada pelos Oficiais de Marinha Gago Coutinho e Sacadura Cabral, demonstra a continuidade da missão histórica que glorificou a nacionalidade portuguesa, iniciadora e propugnadora das grandes descobertas que deram aos homens o conhecimento integral da Terra;
Considerando que, perante a evidência de tal demonstração, se fortalece no espírito nacional a consciência da própria grandeza, nunca desmentida em oito séculos de história;
Considerando que ao alcance patriótico da arrojada travessia se deve acrescentar a sua importância
científica, reconhecida por todo o mundo culto, que seguiu com alvoroço as peripécias da épica empresa;
Considerando que a rota aérea, reflectindo no espaço a esteira das naus descobridoras, mais uma vez une a velha metrópole ao povo que levantadamente perpetua além do Atlântico as gloriosas tradições da raça;
Atendendo a que a ponderada coragem e o metódico saber, tão brilhantemente manifestados pelos dois aviadores, os tornam dignos da mais alta recompensa honorífica que ao valor, à lealdade e ao mérito pode conferir o Governo da República:
Hei por bem, sob proposta do Ministro da Marinha, aprovada pelo Conselho da Ordem Militar da Torre e Espada, decretar que o Capitão de Mar-e-Guerra Carlos Viegas Gago Coutinho, e o Capitão-Tenente Artur de Sacadura Freire Cabral sejam condecorados com o grau de Grã-Cruz da Ordem da
Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito».
 [Decreto 19 Abril 1922 (D.G. 91 / II Série / 1922]
Entre as condecorações estrangeiras foi agraciado com:
Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (Brasil)
Comendador da Legião de Honra (França),
Grã-Cruzes do Mérito Militar com Distintivo Branco e do Mérito Naval com Distintivo Branco (Espanha)
Grã-Cruz da Ordem de Leopoldo II (Bélgica)
Grã-Cruz da Ordem da Coroa de Itália.

Aproveitando a oportunidade das várias cerimónias oficiais de homenagem ao Almirante Gago Coutinho (sem esquecer o grande Piloto Aviador Naval Sacadura Cabral), publicamos alguns diplomas legais referentes a algumas dessas homenagens. Sendo este um blog cuja temática principal é a Falerística, dar-se-á sempre prioridade a curiosidades relacionadas com Ordens Honoríficas e outras condecorações.

Placa-de-Gra-Cruz-ou-Grande-Oficial

Também a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada foi-lhes concedida:

O Decreto de concessão, de 27 de Abril de 1922, dizia:
Considerando que o Capitão de Mar-e-Guerra Carlos Viegas Gago Coutinho e o Capitão-Tenente Artur de Sacadura Freire Cabral, revelaram quer na preparação, quer na realização da viagem aérea Lisboa-Brasil, qualidades excepcionais de saber que produziram a admiração do mundo culto, pondo em prática processos seus que resolvem os mais importantes problemas de navegação aérea;
Considerando que da viagem realizada a ciência tirará ensinamentos que a habilitem à resolução de outros problemas que interessam à navegação:Hei por bem, sob proposta do Ministro da Marinha, aprovada pelo Conselho da Ordem Militar de Santiago da Espada, decretar que o Capitão de Mar-e-Guerra Carlos Viegas Gago Coutinho e o Capitão-Tenente Artur de Sacadura Freire Cabral, sejam condecorados com o grau de Grã-Cruz da referida Ordem.
(Diário de Governo nº 99, II Série, de 1922)
A Sociedade Propaganda de Portugal, uma associação criada em 1906, e que tinha o intuito de ajudar a desenvolver as atividades morais,intelectuais e materiais, sem vinculação religiosa ou partidária, também se associou às homenagens nacionais e internacionais e concedeu-lhes (com sancionamento do Ministério do Interior) o seu distintivo, isto é, um Colar.
Colar-Soc-Propag-Portugal
O Decreto de autorização, de 23 de Julho de 1922, dizia:
Tendo a Sociedade Propaganda de Portugal, em sua Sessão de 27 de Abril último, apreciado o famoso raid Lisboa-Rio de Janeiro e resolvido propor ao Governo a concessão do seu distintivo aos aviadores Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur de Sacadura Freire Cabral, em reconhecimento e consideração pelo heróico feito levado a cabo, com feliz êxito, por esses intrépidos Oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa, pelo Ministro do Interior e em harmonia com o Decreto nº 6.439, de 3 de Março de 1920, conferir aos mencionados Oficiais Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur de Sacadura Freire Cabral o distintivo com que a Sociedade Propaganda de Portugal galardoa as pessoas que pelos seus serviços mereçam o seu carinhoso afecto e reconhecimento.
(Diário de Governo nº 174, II Série, de 1922)Também a Cruz Vermelha Portuguesa se associou a esta série de concessões.
Placa de Honra CVP
Na Portaria do Ministério da Marinha de de 6 de Outubro de 1922, constava singelamente:
Contra-Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho e Capitão-de-Fragata Artur de Sacadura Freire Cabral – condecorados com a Placa de Honra da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, nos termos do Decreto nº 4.551, de 22 de Junho de 1918.
(Diário de Governo nº 234, II Série, de 1922)Em 1926, Gago Coutinho foi nomeado Director Honorário da Aeronáutica Naval, o que era uma grande homenagem dado que este Oficial da Armada não era Piloto Aviador. Assim, foi publicado o Decreto de de 6 de Maio de 1926:Convindo dar ao Contra-Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho, por parte da Marinha Portuguesa, um testemunho da alta consideração que merece por haver contribuído, em grande parte, para a realização do raid Lisboa-Rio de Janeiro, levado a efeito e 1922, tendo, desde então, o seu nome ficado vinculado, de uma forma indelével, não só à Aviação Naval Portuguesa, que muito honrou, ao mesmo tempo que, no estrangeiro, levantava mais alto o nome de Portugal, mas também, pode dizer-se, à Aviação mundial, por virtude dos seus proficientes estudos e trabalhos sobre Navegação Aérea: hei por bem, sob proposta do Ministro da Marinha, decretar que o supracitado Contra-Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho seja nomeado Director Honorário da Aeronáutica Naval, sendo-lhe concedido o uso do Distintivo de Piloto Aviador, encimado por duas palmas cruzadas.
(Diário de Governo nº 109, II Série, de 1926)

 

Homenagem a Sacadura Cabral (1881-1924)

sábado, 21 de fevereiro de 2009 (originalmente publicado no Blog PHALERAE

Homenagem a Sacadura Cabral

Paulo Jorge Estrela

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Na senda das homenagens a Gago Coutinho é impossível esquecer o outro elemento da mais famosa dupla da História de Portugal: Sacadura Cabral.
Depois de viver anos de apoteose nacional e internacional junto de Gago Coutinho, o Piloto Aviador Naval responsável pela pilotagem dos três aeroplanos que fizeram a famosa travessia do Atlântico Sul, este Oficial de Marinha vai ter um fim trágico.
Em 1923 começou a trabalhar para o seu projecto de reunir condições que permitissem um inédito voo de circum-navegação, segundo a rota de Fernão de Magalhães.
Com ofertas várias e com as subscrições abertas em Portugal e no Brasil, conseguiu reunir dinheiro para a compra de 5 aviões Fokker T III W, que escolheu para o dito projecto. Em Junho de 1924 partiu para os Países-Baixos para assistir à recepção oficial dos aeroplanos e regressou a Portugal um mês depois, pilotando um desses aviões.
Em Novembro do mesmo ano regressou à Holanda, com outros pilotos, para trazerem os outros que faltavam.
No dia 15 de Novembro de 1924, Sacadura Cabral, e o seu Mecânico Pinto Correia, morrem quando, enfrentando condições climatéricas muito adversas, o seu avião caiu (por causas ainda hoje desconhecidas) algures no Mar do Norte, após a saída de Amesterdão e quando se dirigia para Lisboa.
Como alguém disse, de uma forma muito poética: “O mar foi a sua mortalha e o avião a sua tumba”

O mundo civilizado ficou chocado com a trágica morte deste herói da aviação e, quando do desastre foram mobilizados meios imensos para encontrar e resgatar o seu corpo, no entanto todos os trabalhos foram infrutíferos. É em consequência deste esforço internacional que será publicado um decreto que vai conceder algumas Ordens Honoríficas Portuguesas para premiar aqueles que, sendo estrangeiros, mais se empenharam na busca.

Decreto de 10 de Agosto de 1927 (Diário de Governo nº 193, II Série, de 1927)
Ministério da Marinha, Repartição do Gabinete
Usando da faculdade que me confere o n.º 2 do artigo 2.º do Decreto n.º 12.740, de 26 de Novembro de 1926, sob propostas do Ministro da Marinha, aprovadas pelos respectivos Conselhos das Ordens Militares de Avis e de Cristo, depois de prévias informações favoráveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros: hei por bem decretar que os Oficiais e cidadãos de diversas nacionalidades, abaixo mencionados, que intervieram nas buscas realizadas por ocasião do desastre, ocorrido no mar, que vitimou o Capitão-de-Fragata Artur de Sacadura Freire Cabral e o Mecânico José Pinto Correia, sejam condecorados com os graus das referidas Ordens que lhes vão indicados:

  • Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis:
    Robert-Marie-Gabriel-Alfred De Marguerye, Vice-Almirante da Marinha Francesa
    C. C. Zegers Ryser, Contra-Almirante da Marinha Holandesa
    D. Luis Pasquín y Reinoso, Contra-Almirante da Marinha Espanhola
  • Comendador da Ordem Militar de Avis:
    Hautefeuille, Capitão-de-Fragata da Marinha Francesa
    E. A. Mesnage, Capitão-de-Fragata da Marinha Francesa
    L. C. P. Pochart, Capitão-de-Fragata da Marinha Francesa
    Gautret de la Moricière, da Marinha Francesa

Edmond Grabbe, Capitão-Tenente da Marinha Belga

  • Oficial da Ordem Militar de Avis:
    C. A. Weemhoff, 1º Tenente Aviador da Aviação Holandesa
    Bouleau, 1º Tenente da Marinha Francesa
    Loudes, 1º Tenente da Marinha Francesa
    G. E. Benoit, 1º Tenente da Marinha Francesa
  • Cavaleiro da Ordem Militar de Avis:
    P. van Lenning, 2º Tenente Aviador da Aviação Holandesa
    A. J. E. Deshayes, Guarda-Marinha da Marinha Francesa
    J. M. L. Guillemin, Guarda-Marinha da Marinha Francesa
  • Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo:
    Joseph Daems, Cidadão belga, Chefe do Aeródromo de Ostende
    Pierre Martinsen, Cidadão belga, Mestre da Traineira 87 Emmanuel

 

sábado, 21 de fevereiro de 2009
Homenagem a Sacadura Cabral
Na senda das homenagens a Gago Coutinho é impossível esquecer o outro elemento da mais famosa dupla da História de Portugal: Sacadura Cabral.
Depois de viver anos de apoteose nacional e internacional junto de Gago Coutinho, o Piloto Aviador Naval responsável pela pilotagem dos três aeroplanos que fizeram a famosa travessia do Atlântico Sul, este Oficial de Marinha vai ter um fim trágico.
Em 1923 começou a trabalhar para o seu projecto de reunir condições que permitissem um inédito voo de circum-navegação, segundo a rota de Fernão de Magalhães.
Com ofertas várias e com as subscrições abertas em Portugal e no Brasil, conseguiu reunir dinheiro para a compra de 5 aviões Fokker T III W, que escolheu para o dito projecto. Em Junho de 1924 partiu para os Países-Baixos para assistir à recepção oficial dos aeroplanos e regressou a Portugal um mês depois, pilotando um desses aviões.
Em Novembro do mesmo ano regressou à Holanda, com outros pilotos, para trazerem os outros que faltavam.
No dia 15 de Novembro de 1924, Sacadura Cabral, e o seu Mecânico Pinto Correia, morrem quando, enfrentando condições climatéricas muito adversas, o seu avião caiu (por causas ainda hoje desconhecidas) algures no Mar do Norte, após a saída de Amesterdão e quando se dirigia para Lisboa.
Como alguém disse, de uma forma muito poética: “O mar foi a sua mortalha e o avião a sua tumba”

O mundo civilizado ficou chocado com a trágica morte deste herói da aviação e, quando do desastre foram mobilizados meios imensos para encontrar e resgatar o seu corpo, no entanto todos os trabalhos foram infrutíferos. É em consequência deste esforço internacional que será publicado um decreto que vai conceder algumas Ordens Honoríficas Portuguesas para premiar aqueles que, sendo estrangeiros, mais se empenharam na busca.

Decreto de 10 de Agosto de 1927 (Diário de Governo nº 193, II Série, de 1927)
Ministério da Marinha, Repartição do Gabinete
Usando da faculdade que me confere o n.º 2 do artigo 2.º do Decreto n.º 12.740, de 26 de Novembro de 1926, sob propostas do Ministro da Marinha, aprovadas pelos respectivos Conselhos das Ordens Militares de Avis e de Cristo, depois de prévias informações favoráveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros: hei por bem decretar que os Oficiais e cidadãos de diversas nacionalidades, abaixo mencionados, que intervieram nas buscas realizadas por ocasião do desastre, ocorrido no mar, que vitimou o Capitão-de-Fragata Artur de Sacadura Freire Cabral e o Mecânico José Pinto Correia, sejam condecorados com os graus das referidas Ordens que lhes vão indicados:

– Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis:
Robert-Marie-Gabriel-Alfred De Marguerye, Vice-Almirante da Marinha Francesa
C. C. Zegers Ryser, Contra-Almirante da Marinha Holandesa
D. Luis Pasquín y Reinoso, Contra-Almirante da Marinha Espanhola

– Comendador da Ordem Militar de Avis:
Hautefeuille, Capitão-de-Fragata da Marinha Francesa
E. A. Mesnage, Capitão-de-Fragata da Marinha Francesa
L. C. P. Pochart, Capitão-de-Fragata da Marinha Francesa
Gautret de la Moricière, da Marinha Francesa
Edmond Grabbe, Capitão-Tenente da Marinha Belga

– Oficial da Ordem Militar de Avis:
C. A. Weemhoff, 1º Tenente Aviador da Aviação Holandesa
Bouleau, 1º Tenente da Marinha Francesa
Loudes, 1º Tenente da Marinha Francesa
G. E. Benoit, 1º Tenente da Marinha Francesa

– Cavaleiro da Ordem Militar de Avis:
P. van Lenning, 2º Tenente Aviador da Aviação Holandesa
A. J. E. Deshayes, Guarda-Marinha da Marinha Francesa
J. M. L. Guillemin, Guarda-Marinha da Marinha Francesa

– Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo:
Joseph Daems, Cidadão belga, Chefe do Aeródromo de Ostende
Pierre Martinsen, Cidadão belga, Mestre da Traineira 87 Emmanuel

 

Actas do VII Encontro Internacional sobre Ordens Militares, Out. 2015 – Palmela || Proceedings of the International Meeting BETWEEN GOD AND THE KING | The world of the Military Orders, Palmela, Oct. 2015

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«Entre 14 e 18 de outubro, Palmela acolhe o VII Encontro Internacional sobre Ordens Militares, subordinado ao tema «Entre Deus e o Rei. O Mundo das Ordens Militares», numa organização do Município de Palmela, através do GEsOS – Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago. Esta edição reúne cerca de sete dezenas de especialistas em história das Ordens religioso-militares, provenientes de doze países e em representação de cinco dezenas de universidades, institutos, museus e centros de investigação. Ao longo destes dias, serão apresentados os resultados mais recentes da sua investigação, num balanço do que, a nível mundial, se tem trabalhado sobre este tema e discutindo diretrizes para o futuro das pesquisas.

O programa da iniciativa foi estruturado em seis áreas temáticas: «Arquivos e Memória», «A Formação e a Prática da Guerra», «As Ordens Militares e o Serviço à Coroa», «As Ordens Militares e o Mar», «Em Portugal como lá Fora: A Ordem do Templo em Tempos de Mudança (1274-1314)» e «Arte, Arquitetura e Arqueologia das Ordens Militares». Mais…

Programa

 

Actas do Encontro “Entre Deus e o Rei. O Mundo das Ordens Militares”

Proceedings of the International Meeting BETWEEN GOD AND THE KING | The world of the Military Orders, Palmela, Oct. 2015

 

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Isabel Cristina Fernandes (coord.). ENTRE DEUS E O REI | O MUNDO DAS ORDENS MILITARES, 2 Vols., COLEÇÃO ORDENS MILITARES 8, MUNICÍPIO DE PALMELA – GEsOSPALMELA, 2018

 

 

Prof. Dr. Júlio de Jesus Martins

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In Memoriam

Júlio de Jesus Martins (08/11/1912 – 06/01/1993)

Capitão Miliciano, Licenciado em Filologia Clássica (FLL), Curso de Ciências Pedagógicas (UC). Iniciou a sua carreira como professor do ensino liceal e técnico, primeiro no Liceu de Faro, e depois no Liceu Pedro Nunes e na Escola Industrial Machado de Castro e, finalmente como professor efectivo do Colégio Militar.

Em 1944 fundou a Didáctica Editora com Américo Silvino Palma, Eduardo Marinho Alves de Moura e António Vicente Teixeira. Foi autor de manuais de Português e de Selectas para o ensino da Literatura – de Camões, Alexandre Herculano, Gil Vicente e Almeida Garrett.

Condecorações:

Oficial da Ordem Militar de Avis (1955)

Oficial da Ordem da Instrução Pública (1951)

Medalha de Serviços Distintos, Prata

Medalha Naval Comemorativa do 5º Centenário da morte Infante D. Henrique (1963)

Medalha Comemorativa do Nascimento de Lauro Muller (Brasil) (1967)

Medalha Marechal Trompowsky (Brasil) (1960)

Medalha do Pacificador (Brasil) (1959)

Medalha de Silvio Roméro (Brasil)

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«Bibliografia

Epítome de gramática portuguesa (em colaboração com Pires de Castro), Lisboa, 1940. Lições elementares de literatura portuguesa (7º ano), Lisboa, 1940. Manual elementar de literatura portuguesa (em colaboração com Óscar Lopes), Lisboa, 1941. “O actual sistema de exames: breve notícia histórica”, Liceus de Portugal, n.º 30 a n.º 32, 1943 e 1944, pp. 2436-2463, pp. 2525-2546 e pp. 2605-2612. “Exames de aptidão para a primeira matrícula nas universidades: resultados obtidos em 1943”, Liceus de Portugal, n.º 33, 1944, pp. 2690-2696. “Serviço de pontos para exames: algumas notas sobre o seu funcionamento em 1943”, Liceus de Portugal, n.º 34, 1944, pp. 2753-2767. “Exames realizados em 1943”, Liceus de Portugal, n.º 34, 1944, pp. 2770-2773. “Exames de admissão aos liceus: resultados obtidos em 1944”, Liceus de Portugal, n.º 37, 1944, pp. 23-44. “Exames do 2º ciclo: resultados obtidos nos liceus de Lisboa”, Liceus de Portugal, n.º 38, 1944. “Exames de aptidão: resultados obtidos em 1944”, Liceus de Portugal, n.º 39, 1944, pp. 214-225. Breve história da literatura portuguesa (em colaboração com Óscar Lopes), Lisboa, 1946. Contos escolhidos de autores portugueses (3º ano), Lisboa, 1952. Ditosa pátria: selecta portuguesa para os cursos de formação e ensino de aperfeiçoamento (em colaboração com Manuel da Silva), Lisboa, 1951. Os doze de Inglaterra, Lisboa, 1956. “A solução dum velho problema: a falta de uniformidade da nomenclatura gramatical”, Labor, n.º 191, 1960, pp. 309-325. Manual elementar de ortografia com exercícios de aplicação, Lisboa, 1961. Selecta Literária (3º/4º/5º anos) (em colaboração com Jaime da Mota), Lisboa, 2 vols., 1962. Caderno de Português: questionário gramatical e exercícios de revisão sobre o programa liceal (1.º ano) (em colaboração com Jaime da Mota), Lisboa, 1963. Vamos ler: livro de língua portuguesa para o ensino primário complementar (em colaboração com Jaime da Mota), Lisboa, 1966. Caderno de Português: questionário gramatical e exercícios de revisão sobre o programa liceal (2º ciclo) (em colaboração com Jaime da Mota), Lisboa, 1967. Colectânea de textos da língua portuguesa (em colaboração com Jaime da Mota), Lisboa, 1972. Nova colectânea: textos de língua portuguesa (7º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares e Jaime da Mota), Lisboa, 1976. Nova colectânea: textos de língua portuguesa (8.º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares e Jaime da Mota), Lisboa, 1977. Nova colectânea: textos de língua portuguesa (9.º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares e Jaime da Mota), Lisboa, 1978. Textos de língua portuguesa (10º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário do Carmo, M. Carlos Dias e Jaime da Mota), Lisboa, 2 vols., 1978. Textos de língua portuguesa (9º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário do Carmo, M. Carlos Dias e Jaime da Mota), Lisboa, 1980. Textos de língua portuguesa (11º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário do Carmo, M. Carlos Dias e Jaime da Mota), Lisboa, 2 vols., 1980. Textos de língua portuguesa (7.º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário do Carmo, M. Carlos Dias e Jaime da Mota), Lisboa, 1981. Textos de língua portuguesa (8º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário do Carmo, M. Carlos Dias e Jaime da Mota), Lisboa, 1981. Ler e comunicar: português (7º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário Carmo, Cristina Pimentel e M. Carlos Dias), Lisboa, 1983. Ler e comunicar: português (8.º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário Carmo, Cristina Pimentel e M. Carlos Dias), Lisboa, 3 vols., 1984. Ler e comunicar: português (9.º ano de escolaridade) (em colaboração com Cecília Soares, Mário Carmo, Cristina Pimentel e M. Carlos Dias), Lisboa, 3 vols., 1985. Aprender português: gramática teórico-prática (5º e 6º anos de escolaridade) (em colaboração com Leonor Sardinha e Carmen Nunes), Lisboa, 1990. Português: Textos e actividades (11º ano de escolaridade) (em colaboração com Mário Carmo, Cecília Soares, M. Carlos Dias e Manuel Lopes), Lisboa, 1991. n Labor. Liceus de Portugal.»

apud, Jorge Ramos do Ó, «GAMEIRO Ottolini, RAQUEL ROQUE», in António Nóvoa (dir.), Dicionário de Educadores Portugueses, Porto, Edições Asa, 2003, pp. 891-893, com adaptações.

Um Herói da Grande Guerra revisitado: Armando Ferraz

Por Paulo Jorge Estrela

Há um episódio histórico, e quase mítico, sobre a participação de Portugal na Grande Guerra que é conhecido por quase todos: o épico confronto entre um Arrastão de pesca português convertido em Caça-Minas, e rebaptizado de Augusto de Castilho e um grande e moderno Submarino Cruzador alemão – o U-139, de forma a proteger um Navio da Marinha Mercante portuguesa, o São Miguel.

São muitas as referências bibliográficas e Sites onde este episódio é relatado e como tal não iremos aprofundá-lo. Em todos se realçam a desproporção de forças em confronto (quer em tonelagem quer em poder bélico: número de peças e seus calibres); a forma heróica como, abnegadamente, o heróico capitão do caça-minas, Comandante Carvalho Araújo, se bateu até à morte e ao afundamento do seu navio; a surpresa, e respectiva homenagem, da tripulação do submarino alemão perante tal reacção portuguesa; a curiosa situação de tudo ter sido fotografado e filmado por um Oficial alemão; ou ainda, o esforço suplementar a que os sobreviventes foram obrigados, naufragando em pleno mar oceânico durante uma semana, quase sem mantimentos e sem instrumentos de navegação, numa pequena balsa…

http://museu.marinha.pt/Museu/Site/PT/Extra/Popups/Oca%C3%A7aminasAugustoCastilho.htm

http://www.pontoblogue.com/2008/10/heroicidade-no-mar-o-caa-minas-augusto.html

http://naval.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_09.html

Quer no Museu da Marinha quer no Museu Militar de Lisboa, existem óleos de grandes proporções, que ilustram este episódio, o que é bem demonstrativo da importância que o mesmo teve…

O que nos leva a colocar este post é o facto de, recentemente, nos termos deslocado ao Museu de Marinha e diligenciado para se alterar ligeiramente o espólio falerístico exposto referente ao Imediato do caça-minas, o Guarda-marinha Manuel Armando Ferraz.
Está patente ao público, numa das salas deste Museu, um conjunto com as suas mais emblemáticas condecorações, todas concedidas como recompensa dos seus vários actos heróicos relacionados com o citado episódio, e que apresentamos uma fotografia.

Como podemos verificar, trata-se do Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, e no meio, quatro condecorações portuguesas: o grau de Oficial da referida Ordem; a Medalha da Cruz de Guerra de 1ª classe; a Medalha dos promovidos por distinção; e ainda a Medalha de ouro de Coragem, Abnegação e Humanidade, do Instituto de Socorros a Náufragos.
Para memória futura, aqui ficam os respectivos diplomas legais que as concederam:

Decreto de 29 de Novembro de 1918 (D.G. 281, 2ª Série, 1918 e rectificação no D.G. 205, 2ª Série, 1924)
«Tendo em muita consideração a brilhante conduta da guarnição do Caça-Minas Augusto de Castilho, do comando do 1º Tenente da Armada José Botelho de Carvalho Araújo, no combate travado no dia 14 de Outubro último, a 200 milhas dos Açores, com um grande submarino alemão armado de duas peças de 15cm, quando comboiava o Paquete S. Miguel, em viagem do Funchal para Ponta Delgada, salvando pelo seu heróico cometimento este navio de ser torpedeado e afundado com numerosos passageiros, sendo também dignos do maior elogio alguns actos de inexcedível bravura praticados não só durante o combate como ainda na perigosa travessia, por espaço de seis dias, feita pelas últimas praças que tiveram, numa pequena embarcação arrombada e desprovida de víveres e instrumentos náuticos, de abandonar, com o Guarda-Marinha Imediato, Manuel Armando Ferraz, o referido Caça-Minas, depois do intensivo fogo suportado valentemente e de esgotadas por completo as próprias munições da sua inferior artilharia: hei por bem, sob proposta do Secretário de Estado da Marinha, decretar que sejam galardoados tão relevantes feitos, promovendo por distinção e concedendo a Cruz de Guerra àqueles que bem mereceram da Pátria e como em seguida vai designado:

Guarda-Marinha Manuel Armando Ferraz, com vários ferimentos em combate – promoção a 2º Tenente, sem prejuízo de antiguidade, Cruz de Guerra de 1ª classe e 3º grau da Ordem da Torre e Espada, pela bravura e energia com que se conduziu no combate que no dia 14 de Outubro teve lugar entre o Caça-Minas Augusto de Castilho, do qual era Imediato, e o submarino alemão que pretendia afundar o paquete S. Miguel, que aquele comboiava, não só auxiliando o seu comando na direcção do combate como depois da morte deste, tendo sido obrigado a abandonar o navio por falta de munições, revelou inexcedíveis qualidades de comando, vastos conhecimentos e competência, conseguindo conduzir a porto de salvamento, apesar de ferido e durante uma viagem de cerca de 200 milhas, uma pequena embarcação arrombada, em que se alojavam 12 sobreviventes, quase todos feridos, sem instrumentos náuticos, sem velas, quase sem mantimentos e água, animando com o seu exemplo de energia e trabalho constante durante seis dias e seis noites, sem nunca esmorecer, a tripulação daquele frágil bote.»


Decreto de 28 de Maio de 1919 (D.G. 127, 2ª Série, 1919)
«Tendo em vista o que dispõe o Regulamento do Instituto de Socorros a Náufragos, aprovado pelo Decreto nº 1.029, de 6 de Novembro de 1914, e em harmonia com a consulta da Comissão Executiva Central do mesmo Instituto: hei por bem, sob proposta do Ministro da Marinha, conceder a Medalha de ouro de Coragem, Abnegação e Humanidade, ao Guarda-Marinha, Manuel Armando Ferraz, pelos relevantíssimos serviços que prestou conseguindo pôr a porto de salvamento uma pequena embarcação do Caça-Minas Augusto de Castilho, em que se alojaram doze sobreviventes, quase todos feridos do combate travado entre o referido Caça-Minas e um submarino alemão, em 14 de Outubro de 1918, tendo percorrido 200 milhas durante seis dias sem instrumentos náuticos e quase sem mantimentos.»
Mas existe um pequeno detalhe falerístico referente a este Oficial da Armada portuguesa (que acaba a sua carreira como Contra-almirante) que nunca é referido. Este nosso herói naval, foi igualmente reconhecido pelo governo de Sua Majestade Britânica, que lhe concedeu a sua distintíssima Distinguished Service Cross, e que foi caso único em Portugal.

Esta condecoração britânica que premeia o valor e a coragem (Gallantry) no mar dos Oficiais subalternos e Capitães, foi criada em 1901 com outro nome – Conspicuous Service Cross – e em 1918 passou a denominar-se com a actual designação, sendo que a sua concessão autoriza o acrescento da sigla DSC no fim do nome do agraciado.

A fotografia apresentada é uma DSC, com o centro do anverso idêntico à do Armando Ferraz, já que este vai variando de acordo com o monarca reinante, e no caso, trata-se da cifra do rei (e Imperador da Índia) Jorge V.
A autorização oficial para a receber e usar foi dada pelo Despacho ministerial de 27 de Abril de 1924, mas somente publicada em Ordem à Armada nº 2, de 1926.

Ora, é com agrado que podemos reportar que a Direcção daquele Museu anuiu à nossa sugestão, e a DSC britânica deste nosso herói – única condecoração britânica deste tipo concedida a um português – irá sair da caixa forte onde estava depositada e ficar patente ao público, sendo uma mais-valia, não só para o visitante português mais atento, mas especialmente para o visitante britânico, muito mais atento a estes detalhes e maior conhecedor da sua herança falerística…

Para rematarmos esta pequena história, apresentamos uma fotografia de coleccção particular, onde podemos ver o “nosso homem”, envergando o seu Grande Uniforme de Oficial da Armada e ostentando as suas condecorações, nomeadamente a Distinguished Service Cross.

Richard Henry Major, Com Torre e Espada, Com Santiago

File:Ricardo Henrique Major - O Occidente (11Mar1894).png

Richard Henry Major (1818 – 1891) foi um Geógrafo, tendo exercido os cargos de Conservador da colecção de Mapas do Museu Britânico e de Secretário da prestigiada Hakluyt Society. Em 1845 foi eleito Membro da Royal Geographical Society, da qual foi secretário (1866-1881) e vice-presidente (1881-84) e, em 1854, Membro daSociety of Antiquaries (Cf. Oxford Dictionary of National Biography entry, por Elizabeth Baigent).

Interessou-se particularmente sobre o descobrimento da Austrália, sobre o qual publicou três livros, designadamente The Discovery of Australia By The Portuguese In 1601 five years before the earliest discovery hitherto recorded … London, Printed by J.B. Nichols, 1861 (Sobre a descoberta da Austrália cf. Des Cowley, European Voyages of Discovery, in «The La Troube Journal», # 41, Autumn 1988, State Library of Victoria).

A obra dedicada à Academia Real das Ciências de Lisboa foi por esta mandada traduzir pelo sócio efectivo D. José de Lacerda e publicada sob o título «Descobrimento da Australia pelos portuguezes em 1601: cinco annos antes do primeiro descobrimento até entáo mencionado», de Richard Henry Major, tradução de D. José de Lacerda, Typographia da Academia, 1863.

Posteriormente, dedicou um estudo ao Infante D. Henrique publicado em 1868,The Life of Prince Henry of Portugal, Surnamed the Navigator, and its Results, com uma 2ª ed. em 1877 (há várias reimpressões recentes, vg. a editada por Thomas Nelson, 1967, e a de Kessinger Publishing, LLC, January 29, 2010).

O seu estudo pioneiro sobre a primazia portuguesa da descoberta da Austrália valeu-lhe ser agraciado por el-Rei D. Pedro V com o grau de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, em 30 de Julho de 1861 (Decreto de 30 de Julho de 1861, publicado no D.L. # 196).

O favorável acolhimento do seu livro sobre o Infante D. Henrique levou el-Rei D. Luís I a promovê-lo ao grau de Oficial da Ordem da Torre e Espada, em Fevereiro de 1868, sob proposta do Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, «fundada nas qualidades do agraciado e no seu reconhecido merecimento literário» (Decreto de 18 de Fevereiro de 1868, publicado no D.L. # 164).

E, de novo em 1875, D. Luís I agraciou-o com o grau de comendador da Ordem de Santiago, do Mérito Scientífico, Litterário e Artístico, a primeira das antigas ordens militares a ser reformada sob a monarquia constitucional em 1862, e que se destinava a recompensar “o assignalado merecimento pessoal e relevantes serviços prestados ás sciencias, ás lettras e ás boas artes, tanto em ensino público, como em obras escriptas e obras artísticas” (Decreto de 8 de Abril de 1875, publicado no D.G. # 79. Agradeço a Paulo Estrela – secretário da Academia Falerística de Portugal, a indicação destas fontes).

Henry Major receberia ainda em 1873, o grau de Comendador da Ordem da Rosa, conferido pelo Imperador Dom Pedro II e, no ano seguinte, o grau de comendador da Ordem da Coroa de Itália, conferida pelo Rei Victor Emanuel II pelo seu trabalho sobre Voyages of the Venetian Brothers N. and A. Zeno (cf. Cf. Oxford Dictionary of National Biography entry, por Elizabeth Baigent)..

Henry Major usou um ex-líbris armoriado, de interesse acrescido por ostentar o Colar da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, certamente feito em data posterior a 1861, em que foi agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem (Inventariado sob o # 19539, Franks Bequest , Catalogue of British and American book plates bequested to the Trustees of the British Museum by Sir Augustus Wollaston Franks, by E.R.J. Gambier Howe, Vol. 2, 1903).

 

 

 

 

 

Originally posted 5.10.2011 by José Vicente de Bragança at 10:22